Friday, June 7, 2024

O desenvolvimento da inteligência artificial só tem um problema: acabar com a democracia.

Vindo esta frase de alguém que vive e acredita na tecnologia, pode parecer demasiado radical. Será? Vou expor os meus argumentos.

A evolução da humanidade está intrinsecamente ligada às tecnologias. Desde que o homem passou a ser sedentário, o que lhe permitiu otimizar a produção de alimentos, foi possível, mais tarde, libertar alguns membros dessas comunidades primitivas para pensar e entender a natureza e o próprio homem, tornando-o Sapiens. Esses novos "feiticeiros", que faziam e pensavam novas coisas, aceleraram o processo de criação de novas ferramentas, prevendo a altura ideal para cultivar, criar animais. Foram as primeiras manifestações de ciência, cultura e religião. Um dia descobrimos a roda e o mundo ficou menor. Mais tarde, dominamos os ventos, os mares e fizemos os primeiros mapas-múndi. Descobrimos algum tempo depois a potência do vapor com a "Panela de Papin", transformando cavalos em máquinas, expressa na unidade cavalos-vapor, precursora das máquinas modernas e a industrialização, fechando o ciclo do domínio do fogo, a produção em massa, que agora, em todo o seu esplendor, o roubamos aos Deuses. A matemática passou a ser a linguagem da humanidade e a física, o Santo Graal, tornando-nos semideuses. Criamos com tanto saber a bomba atómica, pela primeira vez com a capacidade de nos auto-exterminar.

Por volta de 1925, Bertrand Russell, sendo um filósofo e matemático, e após a publicação da teoria da relatividade e as principais ideias da física quântica, quando o mundo fervilhava com tanto novo conhecimento, escreveu um livrinho em que diz algo como: “O que é surpreendente é como sabendo extremamente pouco os homens conseguem conhecer tanto; e mais surpreendente ainda que tão pouco saber lhes proporcione tamanho poder.”

É este equilíbrio que pode ser agora quebrado e catapulta-nos para um novo Sapines, o Deus-Sapiens. 

Este é o Deus de Dirac.

"Se houver um Deus, ele é um grande matemático."

Um matemático que sabe que as leis da natureza tem que cair numa determinada equação, mas não sabe todas as equações que caem nessa lei.

Até há muito pouco tempo, todo o conhecimento era criado por nós, humanos, e, como tal, conseguíamos entender. A produção de conhecimento por um ente que exterior a nós, e que segue a regra do tudo, isto é, obedece às equações do movimento browniano, permitindo transformar o caos em cosmos, poderá nunca ser compreendida por nós. Isso não quer dizer que não conseguiremos usar o seu poder. 

Aqui reside o problema.

Esta é a primeira premissa, mas existe uma segunda para tornar isto explosivo: o tempo.

Na natureza, mesmo na humana, a metamorfose de caos em cosmos leva décadas; na natureza, milhões de anos. Temos agora máquinas que, de alguma forma, escolhem o tempo, transformando milhões de anos em nanossegundos, usando a quimera da vida, o ensaio erro, tentando e rejeitando ou selecionando hipóteses, usando a sua forma de conhecimento como critério, milhões, milhares de milhões, por segundo, acelerando a natureza.

Aqui pode ser quebrado um equilíbrio. Cada novo conhecimento ou invenção carece de um período de habituação, exatamente por ser algo novo. Quanto mais radical for essa novidade, maior o tempo até que exista a massa crítica de gente para a entender e, posteriormente, integrar e reconfigurar a humanidade para viver com ela.

Aqui está o calcanhar de Aquiles. Imaginemos que um homem, uma organização, um país, obtém, através da IA, um conhecimento tão disruptivo que pode pôr em causa o equilíbrio global e dominar todos os outros, todos os conhecimentos, todo o saber, tornando tudo obsoleto. Não me parece disparatada esta hipótese. É aqui que julgo residir os perigos.

Porque, e apesar de tudo, nós somos os criadores e elas, as máquinas, são as criaturas não deverá ser esse o nosso fim, pois para elas seremos nós o Deus criador. Só não sei se estamos preparados para esse papel.


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